sábado, 26 de dezembro de 2009

Minha velha máquina de escrever....



Não existe nada melhor do que férias, ler sem obrigação de ler, eu amo ler, mas as vezes as leituras obrigatórias têm um pouco de fel...mesmo as que eu gosto...
Ficar deitada no sofá o dia inteiro, assistindo filmes antigos, pensei que meu video cassete nem funcionasse mais, de tanto tempo que eu não o ligava, testei meu VHS do Brown Sugar - No Embalo do Amor, ainda acho que este é o filme da minha vida...sempre que penso neste filme lembro da música do Pentágono - Na Moral , mas lembro do meu poema Eterno Amor...

São tantas as coisas que o Hip Hop tem me proporcionado...que não conseguiria descrever com palavras....


Ah, sem contar que desembrulhei a minha máquina de escrever, acreditava que as teclas tinham enferrujada, como estou sem computador, esta temporariamente fora de serviço, resolvia arriscar escrever um texto...mas confesso que da uma preguiça e ainda estou na metade de uma página...

Enfim...amo férias que posso ficar comendo, escrevendo, assistindo, lendo...sem obrigações como nada a não ser eu mesma...minhas necessidades básicas de felicidade....

Feliz 2010!!!!!!!!!
Axé aos que amam os livros, as palavras e o Hip Hop!!!
Elizandra

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Finalizo a ano inspirada nas irmãs Mirabal


Eu adoro descobri novas histórias de vida, sou apaixonada por ler biografias de pessoas que mudaram seu tempo, sua história e fizeram algum tipo de revolução pessoal ou externa....
Estes dias ao ler um livreto do Centro Cultural da Espanha, estava mencionando três irmãs dominicanas que foram assassinadas por conspira a queda de um ditador de seu país...intitulada como Borboletas, as irmãs Mirabal..
Depois em conversa com Cris Moscou, ela me indicou o livro No tempo das Borboletas, que anotei em minha caderneta para pesquisar depois...e estes dias meio querendo férias resolvi procurar o livro, escrito pela Julia Alvarez, também dominicana, mas morando nos Estados Unidos..
Por que escrevo tudo isso, está finalizando mais um ano, é tempo de mudanças, só quando lemos histórias de vida, de pessoas que não se acomodaram com as dificuldades é que percebemos o quanto ainda temos por fazer....
Ainda estou no meio da leitura e peço que elas me inspire a ser uma Elizandra melhor em 2010, e que ilumine todas as mulheres latino-americanas, todas as mulheres que sofrem opressões...............
Mulheres avante, que nossa luta ainda nem começou......
Axé a todos que desejam uma vida mais justa e humana, para si e para os seus....
Elizandra Souza

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Olha meu presente de hoje!!!! Mos Def+ Punga


No domingo me deu uma vontade enorme de entregar um Punga para o Mos Def, mas como não tinha coragem de ficar empendurrada no palco, fazer um escandalo para chamar a atenção dele, eis que vejo Liliane Braga na produção e pedi gentilmente que ela entregasse o Punga para ele...e só para abusar mais um pouquinho, pedi que tirasse uma foto de recordação do momento. E olha que fofo!Agradecida Liliane Braga pela atenção e pelo pedido atendido....

domingo, 6 de dezembro de 2009

Indie Hip Hop - Pentágono e Mos Def - Dia Memorável....




Tudo que me envolvo, é por inteiro e com intensidade...todas as vezes que vou a um show de Hip Hop, relembro quem sou, de onde venho e onde vou..é cliche esta frase, mas não me importo com as redundâncias e os excessos..já que amo em excesso esta cultura...
Não costumo fazer relato no blog como um diário, mas quero passar um pouco do meu sentimento de ontem, que com certeza ficará fixo por um bom tempo, até que eu me esqueça e encontre uma outra forma de lembrar...

Não foi só as atrações que me fizeram feliz, mas os amigos que conheço a muito tempo, no qual fui apresentada pelo Hip Hop, até brinquei com eles, Jardim Iporanga e região, já que é meu bairro de referência no mundo, é o primeiro lugar que conheci como meu lar,é onde dei meus primeiros passos rumo a quem sou,ontem foi um verdadeiro filme dos 13 anos que estou em São Paulo, véspera de comemorar 14 anos, tempo este que estou enamorada pelo Hip Hop, sim somos namorados, resolvemos morar em casas separadas, mesmo juntos e com filhos, acho que assim o Amor dura mais, nos encontramos todos os dias, mas nos vemos e cada um vai pra um lado, dormimos várias noites juntos, mas não todas...damos tempo um ao outro, para que possamos conhecer outras formas de felicidades...

Voltando ao Iporanga, meu bairro de origem,estou falando dele porque Pentágono é o grupo de rap, que além de talento, tem muito afinidades e relação afetiva, já que foi o grupo que na sua origem tive acesso a todas as fases, todas as músicas novas,todas as emoções...Quando eles subiram no palco, um filme paralelo começou a se formar na minha mente, aqueles 20 minutos de show, representava pra mim 13 anos de encontro com o Hip Hop, e eles tem muita responsabilidade neste meu sentimento, pois a referência de Hip Hop vivo com pessoas que amam e odeiam, que diz e contradiz vem da relação com eles. Se hoje amo com intensidade foi inspirada no amor que vi outros sentirem. E sonhei sentir também, mas é uma construção...
Ontem, uma amiga até questionou, nossa Pentágono tem show sempre, não sei porque você prioriza tanto vê-los em detrimento de outras apresentações, eu só consegui responder - Eu gosto! não quis estender o assunto ela nunca vai entender...que a vitória de um é a vitória de todos..e o sentimento que rola no Jardim Iporanga.É muito forte...Quando eles lançaram o cd Natural, priorizaram a primeira apresentação no CEU Vila Rubi, pra mim, foi um rebento de emoções, pois eles tinham a oportunidade de lançar em qualquer casa conhecida no centro de São Paulo, mas não, eles apresentaram primeiro, aos amigos, aos pais,aos filhos, aos admirados da sua vivência que talvez não pudessem ter acesso a outros espaços..essas atitudes não se explicam...
Então quem ver a apresentação de 20 minutos, não sabe o que é ter 15 a 16 anos de Hip Hop e ter apenas 20 minutos pra dizer que vale a pena sonhar,ontem foi uma conquista, que só quem viveu, passou pelo que passou, sabe o que era está naquele palco...Ontem estava apenas quatro mc's, mas ainda vejo os cinco, foi linda a apresentação, mas senti a falta do Dod...ainda que não presente no palco, ele é Pentágono e sua marca continua no grupo.



O show do Mos Def foi maravilhoso, muito gentil da parte dele, reconhecer nossa música brasileira,seja nos samples, seja cantando com a Banda Black Rio. Não tenho nem palavras para descrever a emoção de ouvir suas referências musicais, sendo interpretadas por ele, Michael Jackson, Aretha, entre outros...Música é um ente, é espiritual, não é possivel ser terreno, eu acredito em coisas além da nossa presença física, sei que tem um universo, união de versos, juntamento de emoções que fazem com que entremos em um ritual, que não existe mais nada, nem o trem que perderiamos, pelo avançar das horas, nem o frio, nem o sereno, nada tem mais importância do que a música, do que aquele ritual, de ouvir, de cantar, de dançar, de se supreender com cada canção...
Senti falta de muitos amigos, eu queria que eles tivesse nesta cerimônia,neste terreiro, neste batuque, sente samba gringo,nesta ancestralidade contemporânea..é o ontem que nos diz, faça agora pro amanhã ser melhor...
Resumindo, meu pequeno diário emotivo...Ontem foi lindo, meu dia memorável....
Axé Jardim Iporanga e região!
Axé Pentagóno!
Axé Mos Def!


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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Manifesto do DEXTER

Manifesto referente ao (filme) Documentário "Entre a Luz e a Sombra"


Aos amigos; fãs; admiradores da verdade, transparência e justiça; e a quem mais possa interessar.
Venho, através deste manifesto, me posicionar em relação à produção do longa metragem “Entre a Luz e a Sombra”, dirigido por Luciana Burlamaqui, que irá estrear no dia 27 de novembro de 2009.
Estou aqui não para censurar todo e qualquer tipo de ilustração a respeito de minha história e de meu trabalho, mas não posso concordar e apoiar aquilo que desconheço. Meu único contato com a obra finalizada foi a sinopse do mesmo que não me passou o que me foi proposto quando aceitei que gravassem imagens minhas para o referido documentário. Pela sinopse entendo que o foco apresentado no início da proposta, adotou outro rumo. A intenção era que o mesmo mostrasse que a recuperação do ser humano que se encontra privado de sua liberdade é totalmente possível, desde que a própria pessoa se interesse por sua vida e seu futuro. E não relações humanas individualizadas, com temáticas corriqueiras a qualquer programa comercial de TV. (isso obviamente baseado no pouco material que tive contato). Com certeza isso não faz parte dos meus objetivos.
Reconheço as dificuldades presentes em trazer este material para minha apreciação, já que ainda me encontro privado de minha liberdade, porém não vi disposição por parte da produção em possibilitar este momento. Disposição esta que não faltou na época em que precisaram gravar as imagens, o caminho das pedras sempre foi o mesmo, o que mudou foi o interesse.
Tendo em vista estas dificuldades procurei também possibilitar que meu assessor de comunicação (Sr. Eduardo Bustamante) assistisse o referido documentário para que ele pudesse passar uma posição mais concreta sobre o enredo retratado, mas isso também me foi negado com a alegação de que a distribuidora não permitia a exibição do mesmo para qualquer pessoa antes de seu lançamento oficial. Porém mais uma vez a contradição se faz presente, já que outros que nem se quer são protagonistas da história já assistiram.
Como não recebi um retorno formalizado diante de minha solicitação, registrando a posição da produção do filme, decidi me manifestar, oficialmente, frente a esta questão.
Responsabilizo-me totalmente por tudo aquilo que eu disse e fiz nas referidas imagens, porém não posso atestar, nem legitimar a intenção e/ou forma com a qual este material foi editado.
É bem verdade que cedi o direito de uso da minha imagem para esta produção e utilizando do meu direito de me expressar livremente e também o fato de ser um dos protagonistas da história, digo que não acho justo desconhecer o produto final, isso é inadmissível. Sem contar o desconhecimento total do orçamento, honorários, patrocínios e apoios, lembrando que não recebi cachê para isto. Logo mais o filme estará nos cinemas e, diga-se de passagem, com destaque em salas de pouca circulação do povo da periferia, ou seja, lugares de difícil ace$$o para os que realmente deveriam assistir. Onde está a lógica? Obviamente alguém irá ganhar algo com isso e sinceramente não estou incluído.
Em respeito a minha família, meu trabalho, minha vida pessoal e minha VERDADEIRA história, fica registrado aqui meu manifesto acerca do assunto.
“Sentar à mesa e te assistir jantar não fará de mim uma pessoa que também esteja jantando”

Sem mais para o presente.

PS- Maiores esclarecimentos com meu assessor de comunicação:
Eduardo Bustamante (periferiasoberana@gmail.com)

Dexter

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Cajueiro: meu baobá


Por Elizandra Souza

Na cultura africana as árvores são sagradas, sobretudo, o baobá, que é considerada uma testemunha da história de vida de uma comunidade e também uma árvore mãe, no qual se aproveita todas as suas partes para a sobrevivência humana.

Meu baobá particular e também do meu povo nordestino é o cajueiro, de origem brasileira que se espalhou pela África e Ásia, no período colonial e atualmente provém dele a única fonte de sobrevivência de muitas famílias nordestinas. Esta árvore pode atingir até 40 metros de altura na região Amazônica, seu fruto é a castanha, e o pseudofruto é o caju, palavra de origem tupi Acaiu, que significa noz que se produz.

Era no tempo das férias escolares, na Fazenda Cauê, cidade de Nova Soure no interior da Bahia, que eu desfrutava do meu baobá individual, aproveitando suas safras, suas flores, frutos, sombras, sucos e o mais importante sua companhia.

Com uns sete a oito anos, já estava de mãos dadas com os galhos. Meu avô fez um balanço, com um pedaço de madeira e duas cordas de sisal, somente por não brotar era um dos mais solitários cajueiros da fazenda, e ficava localizado no lado esquerdo da casa de meus avôs. Ali tive meus momentos mágicos tão intensos que fui ao céu pela primeira vez.

Nessa idade também ajudava a minha vozinha, o trabalho era simples, apenas procurar entre as folhas secas castanhas e cajus, separando um do outro e colocando em um balde. O fruto era a nossa moeda de troca, no qual eu conseguia comprar roupas, brinquedos e o meu material escolar.

Eu escalava nos galhos, quando estava no topo observava Deus por entre as frestas das folhas. Ali sentada escondia-me das pessoas que passavam na estrada, sejam montadas a cavalo ou a pé. Meu sonho era ter uma casa na árvore, que nem a Punk – na levada da Breca. Como não consegui convencer a ninguém para fazer a minha casa na árvore, ficava só imaginando como seria possuir uma, para guardar meu diário, meus sonhos e meus repousos.

Os pseudofrutos com qualidade eram colocados em uma bacia para virar sucos e doces em calda, meu preferido.Todas ás vezes que a minha vozinha ia fazer doce eu ficava ao lado do fogão, observando cada passo, a água escorrendo da torneira e banhando os cajus alaranjados ou amarelos ou avermelhados ia sendo separados das castanhas e indo direto para o caldeirão com açúcar e alguns cravos. E ficava por horas se transformando em uma calda suculenta amarronzada.

Já o suco era menos trabalhoso, ainda não tinha eletricidade na fazenda, portanto, sem liquidificar. Então numa peneira era pressionado o caju para que se desfragmentasse e virasse uma pasta cremosa, no qual acrescentava água e açúcar e estava pronta a bebida.

Uma outra forma de degustar do cajueiro é por meio das castanhas, que ao serem assadas, elas são deliciosas. Minha mãe é viciada em castanhas, ela não pensa em ninguém quando esta em transe pelo efeito provocado pelo sabor da mesma.

O cajueiro faz com que os meus olhos brilhem, sou apaixonada por esta árvore que tão bem me representa, se existir outras vidas, quero nascer um pé de caju, bem grande com galhos tortos que alcancem o céu e assim eu possa namorar as estrelas, e me deliciar com cajus e de castanhas.

Na verdade, acho que quero nascer menina sonhadora novamente e encontrarei um cajueiro que possa ser meu namorado, assim me balançarei nos seus galhos, descansarei nas suas sombras, me alimentarei de castanhas e beberei dos seus lábios os melhores doces e licores.

** Texto produzido no Curso Recortes da Vida (UATU),ministrado pelo Profº Percio.

Lançamento do livro do Ferrez, Ação Educativa.Amanhã (24/11, 19h30)



Este livro é mais uma das idealizações do Ferréz, que é levar ao povo, livros. Lendo um dos seus textos fiquem emocionada e castelando como seria bom, se na cesta básica viessem também livros...
Selo Povo vem para auxiliar no incentivo e prática da leitura na periferia, pois estará nas bancas localizadas nos bairros perifericos, nas quais algumas publicações nunca chegam e não sei quando chegaram...
Livro a R$ 5,00....quem vai querer????
Falei tudo menos do livro..." Cronista de um tempo ruim", reunião de textos publicados nos impressos da intitulada Grande mídia....
É isso...
Ação Educativa - Rua General Jardim, 660. Vila Buarque....(11) 3151-2333 ramal 153.
Informações do autor:
ferrez.blogspot.com
www.selopovo.blogspot.com

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cidinha da Silva estréia na literatura infanto-juvenil e apresenta sua obra em São Paulo!


A escritora mineira, Cidinha da Silva prepara o lançamento de mais um livro: Os nove pentes d’África. Desta vez, a autora direciona sua criação, a quarta, ao público infantil e juvenil. A publicação será apresentada, pela primeira vez no país, em noite de autógrafos na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, em sua 55ª edição.

Com um texto pautado pela emoção, em que a prosa a cada linha é pura poesia, a mais recente obra literária de Cidinha da Silva terá, com certeza, leitura disputada pelos adultos. A história construída em 56 páginas, com ilustração da atriz e artista plástica Iléa Ferraz, é lançamento da Mazza Edições, editora de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Na micro apresentação de seu novo livro, Cidinha da Silva expressa que “Os nove pentes d'África" tecem um bordado de poesia e surpresa na tela de uma família negra brasileira. Os pentes herdados pelos nove netos de Francisco Ayrá, personagem condutor, são a pedra de toque para abordar a pulsão de vida presente nas experiências das personagens e rituais cotidianos da narrativa.

O livro de Cidinha da Silva cativa pela descrição minuciosa do universo das relações familiares, pela reverência à sabedoria dos mais velhos e à ancestralidade africana. A motivação criadora, segundo Cidinha da Silva, veio de casa, dos pequenos da família “e em especial, de uma sobrinha que, aos seis anos, em processo de alfabetização, soletrava as letras do Tridente - referência ao seu segundo livro Cada Tridente em seu lugar” -. Aquilo me comovia e angustiava. Expliquei que se tratava de um livro para adultos, por isso as letras eram pequenas e daí sua dificuldade para ler. Ela então me perguntou: “- Tia quando você vai escrever livros para crianças?”.

Era a senha que faltava para a escritora mergulhar nesse novo processo criativo. Ela está fascinada pela experiência. “Creio que farei este caminho por algum tempo. Estou determinada a ser lida pelos pequenos da minha casa, enquanto são pequenos, e fico felicíssima quando minhas sobrinhas e irmãos levam meus livros para a biblioteca da escola em que estudam, ou quando encontram meus livros por lá e vêm me contar. É delicioso sentir que eles têm orgulho de mim e agora poderão ler minha literatura sem esforço, apenas por prazer”.

Outras publicações da autora – “Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras”, de 2003, um livro de ensaios organizado por Cidinha da Silva com a parceria de sete outros autores e autoras. “Cada tridente em seu lugar”, já em segunda edição (2006/2007), é o primeiro livro de ficção. Em 2008, Cidinha da Silva publicou “Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor”, um conjunto de 26 textos, entre crônicas e mini-contos, que gira em torno das afetividades, da sexualidade, do amor e do corpo.

Serviço
O que é: Lançamento do livro de Cidinha da Silva: Os nove pentes d´África
Quando: 21/11/09

Horário: 20:00
Onde: ODUN Formação e Produção - Rua Jardim Francisco Marcos, N.180, Bela Vista
Informações: (11) 31057247

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Rosalva - Por Vera do Val





Rosalva surgiu na vila, lá na nascente do rio, ainda não tinha sete anos. Veio no tempo das águas, com jeito de caça acuada, apareceu do nada na porta do casebre de Inana em uma tarde em que a velha escaldava em febre. A aparição foi obra da mão de Deus, como Inana diria, mais tarde, contando a história.

A primeira coisa que impressionou a velha foi o perfume. A menina exalava um cheiro de flor, um perfume delicado que ia desenrolando no ar, tomando conta de tudo, entrando pelas frestas da maloca; parecia que um anjo estava passando por perto. Tinha olhos enormes e escuros, corpo mirrado e cabelos escorridos, meio esverdeados. Logo serviu de pau mandado, pegando as ervas curadoras guardadas no baú, preparando o chá e cuidando da velha. Depois se descobriu que melhor do que as ervas era aquele cheiro. Quando ela chegava perto a coisa era milagrosa. Envolvia de mansinho as pessoas e toda a dor ia se desvanecendo, a doença saindo em disparada e a calma brilhava no olho antes cheio de agonia.

De onde ela veio nunca se soube e a menina também não lembrava, mas isso não era questão que preocupasse aquela gente. A vida na vila era de surpresa e pouca pergunta, o povo se acostumara com o ir e vir dos viventes, o rio trazia e levava, alimentava e matava quando queria. Velho Nabor, mascate de passagem, disse que ela cheirava rosas, e lhe deu o nome da flor, que ninguém ali nunca tinha visto.



Rosalva foi crescendo nas artes, foi aprendendo com a velha o uso das ervas e as lides do dia, mas sempre meio casmurra, não dada à brincadeiras. O corpo espichando, tomando carnes e formas, dando para a curuminha, macambúzia e de riso difícil, um contorno mais suave e doce que destoava da cara amarrada e do olhar de bicho escondido. O cheiro e sua cura traziam gente de longe para aquelas terras esquecidas de Deus, onde a dor e o conformar era o pão cotidiano. Ela atendia a todos com uma paciência infinita; não havia aflito que não deixasse ali sua mazela e saísse a bendizer e a louvá-la.

Todo começo de noite a menina ia para o rio se afrescar nas margens. Quando o lusco-fusco embaralhava as coisas ela se aproveitava dessa hora silenciosa que a escondia do mundo. Levantava a saia e entrava no rio, devagarinho e de olhos fechados, se deleitando quando a água morna lhe lambia as partes, carícia doce dos dedos d`água, e ali se perdia, no vai e vem do Negro. Era quando seus cabelos se tornavam mais verdes e o perfume mais forte. Ela arengava baixinho um pequeno gemido e o rio, sinuoso, ia lhe respondendo. Nisso ficavam os dois embebidos um bom tempo até as estrelas espiarem e o céu se confundir com as águas

Quando estava lá pelos seus vinte anos, ainda não conhecia homem. O rio era o amante fiel, e estava sempre ali esperando. Respondia-lhe o desejo e não lhe cobrava presente.

Por esse tempo apareceu na vila um latagão que tinha por nome Gerôncio, vinha de Bem Querer, um sítio metido lá pelo confim do mato, perdido no verde e na história das gentes. Rosalva sentiu os olhos dele como nunca antes havia sentido olhar de vivente algum e Gerôncio estremeceu com a donzela. Mexeu nos seus brios aquela moça de olhos baixos e perfume de mistério que todos diziam meio lesa, amasiada com o rio, que curava as pessoas e entendia de ervas como ninguém.

Nessa época Inana morreu, picada de caranguejeira, cujo veneno nem as ervas nem as rezas e nem os esforços de Rosalva e seu perfume milagreiro deram conta de vencer. A moça ficou desguaritada e Gerôncio foi rodeando. Conversa vai, conversa vem, acabou por levá-la desprevenida para a rede e da donzelice só restou a saudade. Depois da noite de amor ele quedou seduzido pela macieza dela, pelo murmúrio tal qual o marulhar das águas e resolveu levá-la consigo de volta para o Bem Querer. Juntaram depressa os trens que eram poucos e parcos e lá se foram os dois para o meio do mato. Ela à procura do paraíso, que tinha gostado de homem, ele na volta ao seu lugar; agora carregando mulher.

Hora de botar juízo e tocar a vida.

Todos contaram depois, que quando da partida de Rosalva o Negro turvou, torvelinhou e rugiu o dia todo, a peixarada sumiu assustada e até pescador muito macho se recolheu precavido.

Casinha pintada de branco, umas criações no terreiro, a vida correndo bonita, mas Rosalva, com o passar do tempo, começou a mostrar uma tristeza danada, um fastio de dar pena. Sentia falta do rio, do ciciar dele no corpo, dedos que Gerôncio não tinha tão leves e afoitos. Começou a estiolar devagarinho, o cheiro sumira, os cabelos perderam o verde, ela bem que se esforçava, mas vivia pelos cantos, com olho de peixe morto. Filho, Deus não mandava e por mais que pelejassem era debalde. Parecia que ela tinha as entranhas secas. À bem da verdade o marido até plantava as sementes, diária e vigorosamente, mas a coisa não germinava.

Lá se passaram uns cinco anos, ela dada a mais murchar a cada dia; ele dado a mais viajar pelas vilas, procurando o campo fértil que a vida tinha lhe negado. Uma bela manhã ele voltou mais soturno e quando ela se apercebeu já estava arrumando o alforje, botando dentro todos seus trastes e dizendo que o tempo dos dois tinha acabado; ele se ia pra outras matas e ela, se quisesse ficasse, se não, que voltasse para vila, para o rio e para suas rezas. Ele estava cansado, era homem de verdade, não queria disputar com Boto, ela que se arrumasse.

Rosalva sentiu que a hora era chegada. Sem um pio, tomou o rumo da vila e chegou lá como quando era menina, só com a roupa do corpo, mas com a saudade no peito.

Ressabiada, foi logo para a margem e foi ela se aproximar, sem aviso, o cheiro voltou fragrante, o Negro rodopiou forte atraindo as pessoas que vieram todas se postar na beira para ver aquilo. Ela se alumiou como um sol, o rio coruscava, águas cantando boas vindas, ela murmurando baixinho, uma algaravia estranha, conversa de Iara e de peixe. Todos viram, estatelados, os cabelos dela cintilarem verdes, enquanto ia entrando rio adentro, um fogo nos olhos, um gemido no peito, se deixando levar pelo negrume sedoso das águas, o rio rindo com ela, a malinando toda, até que, de olhos fechados e um sorriso na boca, ela desapareceu no escuro das funduras e da noite que vinha chegando.

***Conto do livro “Histórias do Rio Negro”, premiado em primeiro lugar na primeira fase do Prêmio Jabuti 2008.


Vera do Val é paulista, morando na Amazônia. Publicou - "Rede de intrigas", 2006, (Editora Escala); "O imaginário da floresta" e Historias do rio Negro", 2007 (Editora Martins Fontes); "Do nada ao infinito" (em parceira com Marcelo D`Ávila) e "O filho do marimbondo", 2007 (Dulcinéia Catadora). Para 2008 no prelo "Criação do mundo e outras histórias" e "Histórias de bichos brasileiros" ( Editora Martins Fontes).

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA NO MACKENZIE:



O 20 DE NOVEMBRO DEVE SER REMEMORADO COM LUTA!



O mês de novembro tem sido símbolo de discussões das questões raciais e sociais em razão do dia da Consciência Negra. Muitos desses debates foram essenciais para desmascarar o mito da “democracia racial”, camuflando o preconceito por anos. Assim, procurando desvelar essa temática, alunos do Mackenzie propõem vivências e debates articulando vários prismas dos olhares lançados sobre o tema.







PROGRAMAÇÃO






09/11 – 18h - DAMAC (Rua da Consolação, 758)

“A INSERÇÃO ATUAL DO NEGRO NUMA SOCIEDADE DE CLASSES”



FILME - DOCUMENTÁRIO: Panteras Negras

PALESTRANTES:

Júnior – Consulta Popular

Wilson H. Silva – Doutor em História – USP e membro da Secretaria de Negros e Negras (CONLUTAS e PSTU)

Tito – Força Ativa, integrante do grupo de rap Fantasmas Vermelhos e aluno de Direito da UNIPALMARES

Renato Aparecido Gomes – Advogado (Instituto Luiz Gama)



10/11 – 18h - DAMAC

“A ACADEMIA EM DEBATE”



PALESTRANTES:

Salomão Jovino – Doutor em História – PUC (História do Brasil – Império)

Sylvia Nunes – Doutoranda em Psicologia Escolar e do Des. Humano - USP

Lia Schucman – Doutoranda em Psicologia Social - USP

Elisabete Figueroa – Psicóloga, mestranda em Psicologia - UFSCar e membro do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros – NEAB

Viviane Lima – Doutora em História – PUC (História da África e afrobrasileira)



11/11 – 18h - Centro Acadêmico João Mendes Jr. (Prédio 07)

"O QUE A MULHER NEGRA TEM A DIZER? - UM DEBATE NECESSÁRIO"



PALESTRANTES:

Elizandra Souza (Mjiba) – Aluna de Jornalismo (Mackenzie), membro da Edições Toró e Cadernos Negros, Cooperifa e Agenda Cultural da Periferia (ONG Ação Educativa)

Karina Annanias Teixeira – Aluna de Pedagogia - Mackenzie

Rosângela Calzazara – Diretora do Sindicato dos Metalúrgicos de SJC e membro GT de Mulheres (CONLUTAS e PSTU)



12/11 – 18h - DAMAC

“A RESISTÊNCIA DENTRO E FORA DA UNIVERSIDADE"



Mesa - "História da luta afro dentro e fora do Mackenzie”

PALESTRANTES:

Gildean Silva "Panikinho" – Pedagogo (Mackenzie), Coord. Reg. Projeto Arte na Casa (ONG Ação Educativa), membro da Soweto Org. Negra e projeto "Hip Hop de Câmara"

Douglas Belchior – União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora - UNEAFRO



Intervenções Artísticas: "Prosa Negra"

- Literatura no Brasil e outros





SERÁ EMITIDO CERTIFICADO

DE PARTICIPAÇÃO



Realização: COLETIVO QUINCAS BORBA! (gestão 2009/2010 do DAMAC) e estudantes do curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Nosso Brasil tão democrático.....................

Data: 27/10/2009
Veículo: TERRA
Editoria: EDUCAÇÃO
Assunto principal: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO
EDUCAÇÃO

Depois de amargar uma suspensão de 45 dias, a professora da rede pública municipal de Macaé, 180 km ao norte do Rio de Janeiro, Maria Cristina Marques acusou os diretores da escola onde trabalha, a Pedro Adami, de perseguição por motivos supostamente religiosos. Ela foi afastada por usar em sala de aula o livro Exu - contos do folclore brasileiro em suas aulas de Língua Portuguesa, ato considerado pela diretoria como doutrinador.

O livro, de Adilson Martins (editora Pallas), tem parecer do *MEC* e estava disponível na biblioteca da própria escola. Teria sido recomendado à professora por um aluno. Cursando pós-graduação em cultura afro na Faculdade de Macaé, Maria Cristina logo se interessou pela publicação, levando-a às suas aulas de literatura. Apesar da boa aceitação dos alunos, a utilização levou a diretora, Mary Lice da Silva, e o sub-diretor, Sebastião Carlos Menezes, a punirem a professora.

"Fico muito triste por não poder mostrar a cultura afro. Não considero esse livro religioso, pois ele apenas narra contos", justificou neste domingo a professora, que voltou a trabalhar graças a uma determinação da Procuradoria da prefeitura de Macaé.

A Secretaria de Educação do município abriu sindicância contra a diretoria da escola. A Procuradoria, no entanto, está investigando a conduta da professora, o que revoltou membros da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa.

A favor de Maria Cristina estão dois abaixo-assinados (um de professores e outro de alunos do turno da noite), várias fotos e ainda o testemunho de dois funcionários.

"Em um primeiro momento, estamos trabalhando para apurar o fato e encaminhar ao Ministério Público um pedido de retratação com base na lei que diz respeito à discriminação religiosa. Posteriormente, entraremos com uma ação de injúria contra a diretora e o subdiretor, que podem ser condenados de um a dois anos de pisão", explica o advogado da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Carlos Nicodemos.

Procurada pelo JB, a diretoria da Escola Municipal Pedro Adami não foi encontrada nos telefones da escola.

domingo, 18 de outubro de 2009

Sonhar: uma conquista amorosa




Nos últimos dias andei observando que alguns amigos estavam realizando sonhos que desejavam há um tempo, cobiçavam ao longe, mas sem perder de vista, ora com uma cantada tímida, ora com uma mais ousada, cortejando com flores, gracejos e sorrisos, provocando situações que só um beijo poderia responder ou calar. É maravilhosa essa sensação da conquista, esse ficar sem fôlego, essa gargalhada espontânea dentro de um ônibus cheio, ao receber uma notícia pelo telefone da tal aprovação.
Um dos meus amigos conseguiu o emprego que estava desejando, outro alcançou a liberdade neste feriado prolongado, quatro dias de “saidinha” como costumam dizer e o outro arriscou tudo para entrar numa equipe de jogadores.
Fiquei muito feliz com a conquista que eles alcançaram, mas passado alguns dias, dois dos três, me mostraram que não sabiam o que fazer com a realização. O primeiro se atrasa e não abre mão de nada para se manter no trabalho que ele tanto almejou. O segundo, resolveu não voltar da “saidinha” e está foragido dentro de casa, sendo que faltavam oito meses para a liberdade definitiva.
A minha esperança ainda está no terceiro, que me parece, que continuará realizando o seu sonho. Pois, ele sabe que venceu apenas uma etapa, e que nos jogos da vida ora se ganha, ora se perde e que continua treinando é ser um pouco melhor, ou dar o melhor de si, fazer o que é possível e necessário em determinado momento.
Este mesmo amigo, me perguntou quais seriam os meus sonhos e planos para os próximos cinco anos, estou sem responder até agora. Sinceramente, não sei. Lembrei de uma frase do livro Alice no País das Maravilhas, que a minha professora vem repetindo desde o começo do semestre: “Se não sabe aonde ir, qualquer caminho serve”. E eu não quero ir para qualquer lugar, não pretendo colocar meus sonhos, que nem sei quais são ainda, nos porões dos sonhos não realizados, envelhecidos e enferrujados com o passar dos anos.
Tem uma outra frase muito sábia do livro o Pequeno Príncipe que diz: “Você se torna responsável por tudo aquilo que cativas” e um outra que li esta semana no livro As Boas Mulheres da China, da jornalista Xinran, um provérbio chinês que adverte “ Se não pode fazer alguém feliz, não lhe dê esperanças”.
Sonhos pra mim, são pessoas amadas que vamos conquistando ao longo do tempo, mas que devemos respeitá-los, dignificá-los. Não é porque tenho o carinho das pessoas que vou fazer qualquer coisa que elas irão perdoa. Afinal, elas foram cativadas e merece todo o nosso carinho e a nossa atenção.

Segue algumas fotos de um outro sonhador...CASSIM@NO...para dizer um pouco mais do que é uma conquista de um sonho....





Conheça mais sobre o trabalho do Cassim@no: http://www.flickr.com/photos/cassimano

Mostra Cooperifa - Promessas de Noites Inesquecivéis..



O Sergio postou em seu blog, qual foi sua noite inesquecivel na Cooperifa? Postei este texto nos comentários:

Como escolher a melhor noite de quarta-feira, se todas as quartas são a mistura de magia e realidade. Mesmo num sarau que não tenha nenhum convidado ilustre,nenhuma atividade especifica, vem uma Dona Maria da Esquina e me diz que a vida vale a pena em versos e prosas..Como escolher a melhor se cada poema me constroe e desconstroe? Como dizer que a lua está menos bela, se todas as noites lunares são verdadeiros espetáculos a céu aberto...
O livro eu tenho, mas queria dizer que todas as minhas quartas-feiras que me presenteio indo ao sarau, eu sou a pessoa mais feliz do mundo..no melhor lugar...Tenho orgulho de pertencer a familia Cooperifa...onde eu for sou cooperiférica...por onde passar..ainda que eu ande no vale da morte..to zuando..parafraseando a Biblia...rs...
Ah! A última vez que vi o Preto Jota declamando um poema no sarau tive que guardar na fotografia da memória (parafraseando o Vaz).
Beijocas
Elizandra Souza...poeta Cooperifa

Fonte:
http://colecionadordepedras1.blogspot.com/2009/09/concurso-sarau-da-cooperifa.html

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Caminhos Africanos & Giros Afro-brasileiros




Os cursos desse naipe, também com muita qualidade, sempre vogam nas mesmas Vilas Madalenas, Perdizes e Moemas (tudo bem, tomara que venham mais e mais...). Mas sempre custando alta moeda, centenas de cifras do real, impossível pra gente do longe.

Pralém dessa ciranda carimbada, então fazemos nós por aqui mesmo, com uma presença afinada, com pesquisadores-educadores-artistas que vivenciam e se aprofundam nas belezas e tocaias desse jardim preto.

Buscando uma pedagogia que desenvolva sim a teoria, tão necessária pra gente não pisar e repisar buraquinho achando que tá voando, mas também pensando com o resto do corpo todo, com seus ritmos, tatos e vertigens, equilíbrios e afetos, acarinhando detalhes e estéticas, nada estáticas.

Em um tempo tão espetaculoso, cheio dos holofotes queimando cada fruto que insiste em nascer, a intenção por aqui é o cultivo, honrando o estudo suado da Capoeira Angola e da Poesia que se faz a cada noite, a cada semana, há muitos anos.

É isso, povo. Agradecendo muito a atenção, com amor no princípio e aprumados na peleja.

Grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros e Edições Toró
Cinco encontros aos sábados – 24 e 31/10, 07,14 e 21/11 - Sempre das 14 às 17hs.

24/10 – “Ancestralidade do barro: Cangomas do Afrodescendente”, com Marcos Ferreira Santos (Músico e Arte-educador. Professor da Faculdade de Educação da USP)
31/10 – “A Lógica do Corpo: Plásticas e Práticas”, com Sarah Rute (Artista plástica . Educadora da rede municipal de ensino e do Museu AfroBrasil)
07/11 – “Fios de Áfricas: Tecidos e Identidades”, com Luciane Silva (Pesquisadora e Educadora da Casa das Áfricas. Dançarina. Professora-Assistente da FACAMP)
14/11 – “Candomblé, Movimento e Geografia”, com Billy Malachias (Geógrafo. Pesquisador e Educador do CEERT)
21/11 – “Tranças do Verbo: Entre a Saliva e a Página”, com Allan da Rosa (Arte-Educador, Historiador e Poeta. Integrante do Grupo Irmãos Guerreiros e da Edições Toró) & Confecção de Xequerê, com Luiz Poeira (Artesão, Músico e Luthier. Integrante do Grupo Irmãos Guerreiros e coordenador do Instituto Tambor)


Projeção de vídeos, mapas, aulas teóricas, oficinas manuais, andadas pela comunidade e a presença da bateria do Grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros tocando e cantando corridos que dialogam com o tema de cada encontro.

GRATUITO para 30 participantes (15 do Grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros e 15 das comunidades adentro e afora) – com distribuição das apostilas e dos xequerês ao final



Direção Geral: Mestre Marrom
Organização Pedagógica: Allan da Rosa
Concepção e Diagramação de cartaz e Apostilas: Mateus Subverso
Realização: Grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros & Edições Toró

Apoio: nós por nós
Agradecimentos plenos: aos educadores que vieram na graça e na luta e à comunidade que chega ou oferece atenção.

Na Senzalinha (Sede do Grupo Irmãos Guerreiros): Rua Arlindo Genaro de Freitas, 692 – Jd.Saporito – Taboão da Serra/SP
Cinco encontros aos sábados – 24 e 31/10, 07,14 e 21/11 - Sempre das 14 às 17hs.
FICHA DE INSCRIÇÃO enviar para edicoestoro@yahoo.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. , até dia 13/10/2009.
As respostas confirmantes serão encaminhadas no dia 20/10/2009.

***
Fonte: www.edicoestoro.net

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Dia 03/10, ás 19h, na TV Cultura, Elizandra Souza, recita poema no Quadro Interferência do Programa Manos e Minas!


Ferréz (entrevistador, escritor....)

Marcelino Freire (Entrevistado, escritor....)

Elizandra Souza (Poeta da Cooperifa)

Amanhã será exibido no quadro Interferência, entrevista com meu escritor favorito Marcelino Freire e poesias minhas (Chamado ou Feto), foram gravados há dois meses no meu bairro, Jardim Porto Velho...Gostaria de agradecer pelo convite da equipe...
Axé...Segue informações sobre o programa e os horários de exibição..

Marcelino Freire (escritor)e Elizandra Souza (poeta da Cooperifa)
Sábado, 03/10/09 – 19hs
Reprises:
Domingo, 04/10/09 – 1h30
Segunda-feira, 05/10/09 – 12h30



http://interferencia.art.br

INTERFERÊNCIA
debate idéias alternativas.
O escritor e rapper Ferréz recebe, a cada programa, um convidado para uma conversa na Barraca do Saldanha, no bairro do Capão Redondo, periferia da cidade de São Paulo.

Exibido quinzenalmente no programa “Manos e Minas” da TV Cultura (Sábados, 19h00, reprises: Domingos: 01h30), o quadro coloca em pauta assuntos marginalizados pelos grandes meios de comunicação, de maneira simples e direta. Além disso, busca apresentar o entrevistado como uma pessoa com opiniões além do seu ramo de atividade.
Como em uma conversa de bar, INTERFERÊNCIA pretende tornar os temas abordados acessíveis a todos sem, no entanto, perder em conteúdo.

Além da conversa, o programa conta com alguns quadros de curta duração, que ampliam os temas debatidos, dando maior dinâmica e trazendo novos aspectos culturais para o contexto.

INTERFERÊNCIA pretende tirar o acesso e a produção da informação apenas do círculo composto pela elite cultural , estendendo-os às demais esferas sociais.

Equipe:
Apresentação: Ferréz
Direção e Edição: Ricardo Sêco
Produção: Lia Garcia
Ass. Produção: Priscila Ynoue
Ass. Produção e Edição: Marcos Mori
Finalização: Marilia Halla
Direção de Fotografia: Alexandre Bissoli
Ass. Câmera: Rogério Ferreira
Áudio: Fernando DJ
Cenografia: Marcelo AMP / Gustavo de Magalhães / Ale Carmani
Fotografias para Arte: Sussa
Trilha de Abertura: Fabio Pinc
Desenvolvimento do Site: Leonardo Germani
Design: Elena Germani
Agradecimentos/Piloto: Cauê Ueda
Realização: Quadra Onze

Ontem um dia memorável....Agradecida Mulheres-meninas...Meninas-mulheres....!!!



Ontem teve o lançamento da Cartilha Hip Hop Mulher - Conquistando Espaços, uma noite como poucas, poesias e discurssão, videos e relatos de mulheres jovens, grifando e traçando novos amanhãs...Quero só registrar o meu carinho e meu respeito..à todas as mulheres do Hip Hop...Tiely tu é uma mulher de fibra e sonhos coletivos...sonhar junto é muito mais gostoso...rs..obrigada por me incluir nos seus sonhos...Rose, flor da Amazônia...agradecida...viu??? Edições Toró é um tecedor, adubar de sementes e frutos bons...tamo juntos...misturados..abraçados e encarinhado em novos caminhos...aprendo, aprendo e aprendo a ser uma mulher melhor....Aos presentes com seus sorrisos e abraços......
Beijocas...e só tenho a agradecer pelo respeito, pelo zelo e pelas idéias....
Elizandra Souza...



Saiba mais:
http://www.edicoestoro.net


http://mulherhiphop.blogspot.com/

http://www.hiphopmulher.com.br/

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

HIP HOP MULHER....

Só para dizer que eu não avisei...


Les Nubians no Brasil > São Paulo > para ficar melhor ainda, com preço popular...no Sesc Pinheiros dias 06 e 07 de out.....to avisando.....só não vai dizer que eu não avisei...risos..



Fonte: http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=159621

domingo, 27 de setembro de 2009

Flete Farto - De Akins Kinte e Nina Silva


Ele assim me paquera, não encolho
Quer me ter e já me come com os olhos

ao invés de me chamar pro desenrolo
insiste em me despir a distancia

nas ilhas de teus olhos viajo, não nego
e do nego sinto a pele, o cheiro, o calor
suas mãos escurrega...

para dentro de minha saia
Não sai, ensaia
Como vai ser o ato
De fato
vejo meu corpo na Menina de seus olhos
enquanto eu Menina sente o corpo incendiar

nessa hora o pudor já caiu fora
só o que resta é o momento, o agora
embora não passe de um Simples olhar

se eu pudesse ao menos sentir o seu toque
saberia da cadência que bate aqui dentro

afogaria no fogo de meu eu em chamas
eu dada, entregue, dei meu corpo de mulher
ele me caça no olhar, me persegue me quer

como bicho no cio me deseja
sinto o aroma do gozo em meus seios
fico tensa só de imaginar, devaneios

o peso de seu corpo pesa mais que sua presença
me imprensa
contra o leito do desejo
minhas costas tocam o chão enquanto me toca
enquanto minha cabeça Vai aos céus e Você nem nota

já sou sua
ja estou nua
me possua ...

volto a mim e você não mais me olha
o olhar que preenchia ainda agora
foi-se embora

Nina Silva
Akins Kinte



Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=2431

Onde nadam os peixes encantados..

Por Ana Maria Gonçalves...autora do livro Um defeito de Cor.






(primeiro capítulo de Ao lado e à margem do que sentes por mim)



Aos dois anos de idade soltei a mão de minha mãe e atirei-me ao lago. Se puxasse um pouco pela memória talvez soubesse precisar uma data, uma referência de mês ou estação do ano, mas não me convém. Importa-me muito mais o ato, talvez o meu primeiro ato de libertação. Ou então, aquele que me prendeu definitivamente o destino ao destino das águas, na feitura de lagos maiores, de rios e, finalmente, de mares.

Durante anos esta história esteve esquecida, guardada em algum canto esperando seu lugar no fluxo das memórias que, não sendo recorrentes, são especiais. Fazem parte daquele tipo de lembrança que pode esmaecer e até perder todas as cores; mas basta um leve pousar de olhos sobre um fragmento, um cheiro captado no vôo de um vento vindo de longe, um gosto antigo salivando na boca, e ela, a tal memória, revive. E me preenche de tal maneira como se nunca tivesse me abandonado, como se não fosse tempo passado, como se estivesse sempre acabando de acontecer.

É esta a sensação que me acomete agora, trinta anos depois, de frente para este mar: a de nunca ter tirado os pés de dentro da água do lago para o qual me atirei aos dois anos de idade, aproveitando o único momento de descuido de minha mãe.

Estive quase toda a manhã pensando em como as coisas importantes que nos acontecem dependem apenas de um derradeiro segundo, nem mais nem menos. É como se a vida inteira fosse se acumulando naquele exíguo espaço de existência temporal, equilibrando-se perigosamente às margens de um precipício, à espera de uma atitude corajosa ou de um elemento desencadeador, para então se resolver inteira. Ela, a vida, anseia pelo nosso momento de descuido para acontecer simplesmente, sem as amarras e os cuidados com que a mantemos em permanente vigilância.

Seja sob as bênçãos daquele deus que, mesmo quando não invocado, está sempre ao serviço dos loucos, dos apaixonados e das crianças. Ou sob as asas negras do anjo dos arrependimentos. E no meio da vida, no meio do salto, da fuga ou da corrida desenfreada, de um lado e do outro do precipício, estamos nós, a quem raramente é permitido saber com antecipação quem ou o quê nos rege.

Se o nosso próximo instante será fruto de agir ou de sofrer uma ação: a vida é sempre um passo certo ou um golpe do destino, quase não há meio termo. É nisto que penso enquanto o sol a pino projeta minha imagem vertical na areia quente e me traz de volta a miragem do lago.

Quando criança, não sei quantas vezes pedi que me contassem a história do lago. Na verdade todos o chamavam de prainha, Prainha do Niterói, a centenas de quilômetros do mar e formada por um braço do Rio Misericórdia, onde há muito tempo funcionou a draga de João Daiara.

Ibiá era apenas um vilarejo, lugar de passagem e de pouso para os tropeiros que, em ruidosas comitivas, serpenteavam centenas de quilômetros entre as montanhas de Minas Gerais, transportando o gado para as regiões de abate mais ao sul do país. No amontoado de casinhas de pau-a-pique eles alugavam redes para uma noite de maior conforto, conseguiam uma tina de água para um banho quente, faziam uma refeição mais reforçada, cuidavam do gado doente ou cansado e planejavam o restante da viagem. Aos poucos, um e outro tropeiro se desgarrava e ficava por ali, onde tudo ainda estava por fazer, e acabaram surgindo as moradias e as vendinhas com as mercadorias a granel: arroz, feijão, café, milho, farinha, carne salgada, fumo de corda, cachaça.

Ainda menina de sete ou oito anos, depois de ouvir esta história da boca de minha mãe, meu pai, de tios ou avós, eu me transportava em pensamento para a beira do rio. Ao redor de duas ou três fogueiras, acocorados sobre os calcanhares, os tropeiros conversavam e tocavam violão, com as vozes ruidosas ensandecidas pelo brilho da lua cheia e pelos goles de cachaça.

Já eram bastante familiares as figuras que minha imaginação ia tecendo inspirada pelas histórias que contavam sobre paragens distantes, lugares de onde tinham vindo ou para onde estavam indo. Mas para que eu não os ouvisse direito sussurravam sobre mulheres, queixando saudades, dores de amor, tristezas e alegrias equilibradas na corda tesa da viola. Suas canções quase sempre lamentavam os companheiros mortos durante as viagens, os amores abandonados ou impossíveis, as paixões comprometidas, os encontros furtivos. O tipo de amor que pode enlouquecer um homem solitário, como João Daiara.

Antes o chamavam de João da Draga, por causa do maquinário que montara no distante rancho do Niterói. Ele aspirava o leito do rio e abastecia de areia as construções erguidas no vilarejo, que crescia seguindo os tortuosos avanços do Rio Misericórdia. Naquele tempo, a Prainha não passava de um local onde o rio se alargava um pouco mais e tinha em sua margem a areia ruim de vender, quase um cascalho que não seria aproveitado antes de muito bem peneirado e escolhido. Até o dia em que João enlouqueceu:

- É da Iara! É da Iara!

A grande máquina trabalhava dia e noite, cuspindo dunas que João Daiara espalhava incansavelmente pelas margens do rio, negando-se a vender um único grão de areia sequer e vigiando para que ninguém os tocasse. A draga cavou a lenda de um lago sem fundo, onde João Daiara ainda vive depois de ter sido enfeitiçado pela iara que, numa noite de lua cheia, viu surgir no meio do rio e pedir uma praia para descansar. Durante muito tempo depois que João Daiara desapareceu sem deixar vestígios, a draga funcionou sozinha. Desordenada e autoritária, dividiu o rio Misericórdia, que seguiu novo curso bandeando-se para o outro lado, formando uma nova margem bem no meio e deixando do lado de cá, o lago. Hoje, o curso desviado do Misericórdia e a Prainha apenas se unem nas grandes enchentes. No resto dos dias ficam para sempre separados pela ilhota, coberta de densa vegetação.

Muito antes daquele meu primeiro contato com o lago, ele já tinha perdido um pouco de sua memória mágica, e quase não se falava da história de João e sua Iara. Tornara-se um local de lazer onde, aos domingos, famílias faziam piquenique e crianças construíam castelos na areia, sempre advertidas de que deveriam se manter fora do lago sem fundo. Lá viveria um monstro, uma maldição que endoidecia quem se atrevesse a entrar nas águas. E aquele pedaço de rio foi ficando esquecido, abandonado, nem mesmo servindo de cenário para os moleques que procuravam os lugares de nadar escondido. Era calmo demais.

Não me lembro de terem voltado comigo ao lago. Talvez minha mãe tenha preferido não se arriscar a mais um momento de distração e povoado meu universo infantil com novas descobertas. Aos domingos, depois do almoço, quando toda a família se reunia na casa de minha avó, eu me dedicava às incursões pelo enorme quintal. A casa lá na frente do terreno, os primos e as outras crianças entretidos com brincadeiras que nem sempre me interessavam. A tarde preguiçosa escorrendo por entre as folhas das parreiras transformadas em caramanchão, onde os adultos conversavam. Eu fugia para os meus cantos preferidos, para brincar sozinha ou com amigos invisíveis. “Menina estranha”, às vezes diziam, mas me deixavam ficar pelo quintal, observando a atrapalhação de patos e galinhas, o cachorro cavando a sombra, o vai-e-vem das roseiras nas costas das formigas. De companhia eu tinha o murmurejar de águas, doce, constante, monótono, o Misericórdia correndo tranqüilo e me chamando para o outro lado da cerca.

Durante alguns dias eu apenas o observei, através de uma janela que abri por entre folhagens que recobriam a cerca de arame já bastante enferrujado. As águas barrentas carregavam restos de chuva de algum lugar mais acima, instigando-me a saber de onde vinham e para onde iam. Às vezes eu mesma jogava um pedaço de madeira, uma flor, uma ramada de árvore que não afundasse, e corria paralela à cerca até o limite com o quintal vizinho. Apostando comigo mesma, queria saber se o objeto seguiria rio abaixo ou sumiria nas águas, dragado pelo miolo de de seu próprio redemoinho.

Um dia, atravessei a cerca. Do lado de lá o rio era ainda mais fascinante, um grande animal a rastejar, poderoso, soberano, arrastando consigo tudo que tentava atrapalhar a caminhada. Fui perdendo o medo e seguindo-o até cada vez mais longe, pela estreita trilha formada entre uma extensa fileira de bambus e o solo úmido e musgoso da sua margem; a qualquer hora do dia, sempre à sombra. O caminho à frente se fechava, obrigando-me a entrar em meio ao bambuzal, sentindo que me afastava do rio. Pensei em voltar, com medo de me perder, mas ainda podia ouvi-lo seguindo um pouco mais adiante. Olhando através de uma pequena abertura entre os bambus, eu o vi. O lago, exatamente como eu me lembrava dele naquela tarde em que, no colo de minha mãe, eu o olhava por sobre os ombros dela. Ela se afastando em passos largos e nervosos do único lugar onde eu queria ter estado até então.

Não havia mais sinal de pic-nics, nem de castelos de areia, nem das conversas em domingos de sol. Apenas o completo abandono de um amontoado de histórias, lembranças, passagens e pessoas. Um lugar antigo, longe de ser bonito. A areia grossa e clara coberta por uma vegetação rasteira que havia muito tempo não experimentava passos, apesar de ainda estar impregnada de pegadas. É claro que na época eu não tive esta percepção, e acredito que meu fascínio foi pela vida por acontecer, a lentidão, a espera, os vazios, as descobertas possíveis. A prontidão com que aquele lugar obedecia ao meu comando de brincar de "-Estátua!". E paralisávamos os dois a nos observar, ele se fazendo presente nos espaçados estalares de gravetos, no vôo enlouquecido dos insetos. Na timidez com que o sol espreitava por entre a densa folhagem, fazendo daquele um lugar perfeito para minha existência de menina estranha.

Representávamos muito bem nosso papel, eu e aquela estática natureza, às vezes por horas seguidas debruçadas uma sobre a outra. Eu e as árvores mirando o lago parado e ele nos espelhando de volta. Um eco do nada, uma antecipação de algo importante que estava para acontecer e que íamos adiando. Às vezes por puro medo de não saber o quê, ou por querer prolongar a sensação de anti-clímax frente a uma revelação grandiosa, que seria só nossa. Um segredo terrível que nos libertaria para sempre da condição de diferentes, do estranhamento a que estávamos tão acostumados.

Pequenos fragmentos de vida às vezes vinham à tona. Minúsculos peixes e anfíbios que nadavam pela margem, esperando que um fruto se despregasse das árvores e afundasse nas águas, com o peso e o estardalhaço de mil toneladas. O choque deslocando gotas que saltavam no ar e caíam de volta na lisa superfície do lago, liberando ondas que se propagavam e deformavam as sombras das árvores ali descansadas. Os troncos eram transformados em membros tremulantes e amorfos, e os insetos levantavam vôo assustados, e o vento parecia soprar triste chorando entre o bambuzal. Durante alguns segundos eu tinha medo, muito medo de que os segredos que habitavam o fundo daquele lago se libertassem, aproveitando um momento de descuido da natureza.

Eu sentia um misto de temor e desejo de que o lago se desencantasse, e em alguns dias isto era quase iminente. Quando pesava no ar um misterioso prenúncio de alegria, eu me inquietava achando que o momento fosse se precipitar. Era evidente que bastava um simples desequilíbrio, um encontro fortuito, uma mínima borboleta que destoasse do tom de quase luto fechado do ambiente, e a mágica aconteceria. Primeiro, abrindo as densas folhagens e esparramando no espelho calmo e límpido do lago, o céu azul e a verde nudez da vegetação. Depois, soprando uma brisa suave que levava embora o mofo das paragens e tocava flautas pelo bambuzal, acordando pios, trinados, chilreios e assobios. Trazendo de volta uma ruidosa revoada de pássaros, que disputariam espaço com zumbidos e sussurros de milhares de insetos de asas delicadas e coloridas. E os raios de sol batendo no lago e se projetando em troncos antiqüíssimos, escondendo-se por entre as rugas de jequitibás, ingazeiros, ipês e jatobás. Desalojando trepadeiras, bromélias e orquídeas de todas as cores e formas. Pelo chão haveriam de se espalhar leguminosas, e samambaias chorariam pelos barrancos em meio a juncos, desalojando joaninhas, saúvas, grilos, minhocas e centopéias. Uma confusão de cores, um misturado de formas, um excesso de vida, um aumento exagerado de cheiros. E o lago, se já estivesse pronto, sairia de seu estado de contemplação. Bastava isto. Só isto: um breve encontro, um instante em que ele se visse refletido nas asas de uma borboleta.

Pois então, lembra do que te falei lá no início? Sobre a vida ir se acumulando inteirinha nas margens de um precipício, esperando a hora de acontecer? E sobre estar ainda hoje, aqui, com a mesma sensação que tive ao molhar pela primeira vez os pés no lago? E sobre como eu acho que de lá nunca os tirei? E das histórias antigas que fazem do viver uma constante preparação para a história derradeira? É porque eu sinto que é você e precisava te contar de mim.

Sim, hoje esta sou eu:

- Muito prazer, o lago!
Fonte: http://anamariagoncalves.blogspot.com/2006/02/confisso-26.html

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Molecote Matuto - Akins kinte

Este video foi filmado por Elizandra Souza, em uma apresentação do Patota de Firmino no CCJ. Akins Kinte, meu parceiro de todas as horas.Para quem não conhece um sonhador, este menino tem estrelas nas palavras, carrega o segredo no céu da boca, os pés pisa em nuvens e o coração cadencia um bom samba..o futebol de varzea é a trilha que segue seus ouvidos...Um dia te escrevo, meu melhor poema!!! video

Conhecimento é a fonte para traçarmos novos rumos...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

DOLORES DE MININA - ELIS REGINA

Reprodução



Dolores...melanina minina...


aPRENHeensiva
a-prendida na faxina
...arrependida...
Aplaudia


à pau


o dia
di cagada...


melada uterina

I.. sem chão


nem asa
sem caxão


nem casa
c'um comichão


e náusea...
o ventre si arriba
e invadi o peito em cólica
na purgação do purgatório

Di istorá as bolha lacrimejêra
É mar na praia das olhêra
Chuva nas oreia das conselhêra...


E com pé-de-breque e freio-de-mão
No silêncio de uma poça sem água
ingole...


e sem gorfá
um bolo di fisgada
i vê...


sem podê incará
cachuerá


coxa abacho
......morto....


no aborto......
Pingumano gotegente


...i...é só....mais uma pisa da vida
em surdina
de Dolores...melanina minina...


Autora: Elis Regina F. Vale
Poeta, estudante de pedagogia, trabalha com o ensino público de São Paulo.

Publicado na Antologia Negrafias - Literatura e Identidade, 2008, Ciclo Contínuo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

CHAMADO - ELIZANDRA SOUZA


Ouço vozes aqui dentro

Vozearia, gritaria

Identidade diversas

O avesso do meu eu

Colcha de retalho do nós

Ancestralidade clama

Para acendermos a chama


Elizandra Souza - Publicado na Antologia Sarau Elo da Corrente,Elo da Corrente Edições, 2008.

sábado, 12 de setembro de 2009

ENCOSTA NORTE

Blusa branca, bermuda bege e chinelo
Em vossos olhares, vejo nosso elo
O sorriso esconde a amargura
Dividimos amor e loucura

Aprendi que ser simples é sabedoria
Entrei sem algemas, por meio da poesia
Na leitura do texto, o bocejo
Penso o que deu errado, re-vejo

Agradecida pelo respeito
Nem silencio nem grito
Apresento nos livros uma nova estrada
Como refúgio na caminhada

Sonho também com liberdades
Perspectiva de futuro nos corredores das universidades
Poesias que pulsam mesmo trancafiadas
Literatura de línguas afiadas

ELIZANDRA BATISTA DE SOUZA

* Poema dedicado aos adolescentes em conflito com a lei da Unidade Encosta Norte - Fundação Casa, que participam da Oficina de Literatura do poeta Akins Kinte.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Pessoas que não devem ser esquecidas no Hip Hop...



Esta letra do Emicida para o Dj Primo, me remete saudades de pessoas que fizeram a história do Hip Hop Brasileiro, como Preto Jota, Preto Ghoez, Sabotagem, entre outros...


Aí... cê já perdeu um camarada?
Já te deu vontade de quando ver Deus dizer, "Nessa cê
deu mancada"?
Refletir na solidão da madrugada
Com a incapacidade de entender a parada
Vagar pela calçada sem saber
Ter em repeat uma questão na mente, por quê?
Olhar pro céu sem ver beleza no luar
Respirar fundo na direta e o aperto no peito
continuar...
Vontade de rezar sem ter religião
Maldade é arrancar sem pedir permissão
Como gansos em prontidão, no front dão xingo e tapão
Um monte, jão, que deve? Não, responde e era, então
A história se repete irmão, pontos finais na nossa
ação
Motivos pra lembrar, qual o motivo e razão da missão?
Porra! Elevar é foda né não?
Minha cota vai ser fazer valer, mandar pro cê na
sincera intenção


Sabotagem

Você pediu, não deu tempo de entregar
Eu aprendi que a gente deve TUDO, menos esperar
Se der pra ouvir, peço, hey DJ, toca aquela lá!
Que dessa vez a gente vai sentir sem escutar
Em cada instante, as rimas não é o bastante
O que tampa o buraco da falta que fez quem tava antes
E o pior é que ele não vai voltar
Só em lembrança, quando pegar a caneta eu vou honrar,
pois...


Preto Jota

Essa é pra você primo...

Penso, talvez citar não seja necessário
O fato de que já fui a mais velórios que a
aniversários
De que os melhores realmente vão
De que a Terra não é lugar pra quem tem bondade no
coração
Às vezes é difícil acreditar
Não tem palavra que possa confortar
Não tem peito que possa comportar
Vejo como se fosse um rolê e do nada cê fosse
voltar...
Fico feliz, tio, de lembrar que nóis sorriu da última
vez
Porra, hoje faz mais de um mês...
É complicado e em cada vez que eu me lembro
Minhas manhãs se tornam sós num novo 11 de setembro
Menino bom, sonhador, dedicado, de valor
Inspiração pros que tão na de riscar, de compor
De dançar, de expor, se entregar pro que for
Pra lutar sem temor, sem lucrar, por amor
Viu agora como o bagulho é sério?
Que nóis é mais que tênis colorido e batida no
estéreo
Tá além de qualquer interesse
Quando cê for dizer que dá a vida por isso, pensa nuns
casos desse...

É pra você primo,
Essa é pra você primo...

Por incrível que pareça
Nóis cada vez menos se acostuma, não importa o quanto
aconteça
Meus prantos são louvores que exaltam amores
Pra diminuir nos meus, um tanto de suas dores




Preto Ghoez

Então vive cada momento como o final
O amanhã é tarde pra nóis, pensa nisso, na moral
Na intenção de ser melhor, ser maior, se encontrar
Eu acredito que o motivo de nóis vir seja voltar
No meio dos dream, em vão eu tento
Mostrar pros caras, a única coisa que nóis tem é o
tempo
Valoriza a partida, a chegada, a volta e a ida
Os scratches, as batidas, cada dia é uma vida
E dela, pra se levar, só a paz da certeza
De ter feito o que tinha de se fazer, firmeza, firmão
Em cada sessão será sentida
A falta do primo que era irmão, a história não será
esquecida
Minha cara é encerrar a transmissão, com aperto no
coração
Sem saber o que dizer mesmo irmão...
Olhando como um retrato, uma recordação
Então a gente vai continuar
Pra mim é a melhor forma de te respeitar
Firmão família, obrigado por me escutar
No meio de tanta coisa eu tinha que falar, que

É pra você primo.

Balada do Amor


* Por Carlos Marighella

Eu canto o amor por exaltar a vida,
a liberdade, a humanidade e o belo.

Mas que o amor seja como a natureza
simples, real e nunca fantasia.
E que eu possa viver amando sempre,
iluminado pelo teu amor
resplandecente como a luz do dia.

Eu canto o amor por exaltar a vida.


*Texto retirado do livro Rondó de liberdade, Carlos Marighella, Editora Brasiliense, 1994. Mas o texto provavelmente é dos anos 1959 a 1966.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O vento


* Por Lande Onawale

disperso-me por aí
feito brisa
depois me rejunto e chego como ventania
varro a casa
derrubo coisas
safadamente
devasso a monotonia

talvez eu seja um vento mau
talvez injusto
para quem tinha olhos postos no horizonte
a procurar por mim

não me desespero
e não quero
ser feliz de outro jeito.


* Poema extraido do livro O Vento, Lande Onawale,Salvador, 2003, Edição do Autor.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sentimentos, visões e Invenções...

Foto: Elizandra Souza

* Por Pedro Gomes

As mães azuis. Professoras verdes claro. Amigos são amarelos ou marrons.
Decepção é cinza. Pai é preto e branco. Amor é um dourado caramelizado com flocos de chocolate.
Aqui, em minha caixa de fósforo ou mundinho de fogo, cabem todos os lápis-de-cor, mas o colorido perde a graça quando abro os olhos. O engraçado é que olhos fechados para sempre assustam.

* Texto retirado do livro Rabiscos sobre certezas em constantes metamorfose. Pedro Gomes, 2007, Edição do Autor.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Literatura Erótica: Escrita da Mulher Negra




Click - Elisa Lucinda

Lira tinha um namorado discreto e recente pra quem ligaria depois da pales­tra. Cientista, socióloga e pesquisadora das culturas das comunidades ditas pri­mitivas, a brasileira Lira morava na Espanha e ligaria para o tal namoradinho que tinha conhecido num almoço em outra palestra. Ligaria depois do discurso, de­pois do decurso, depois do curso das coisas.

Click. Um fotógrafo no corredor da Universidade pesca o estilo dela. Vai olhando o linho bordado do colete, a seda fina do vestido pérola que lhe supu­nha as curvas, as botas, italianas com certeza. Olhos de esfinge tinha a Lira. O lince olhar dele invade seu movimento como um gesto, que é o que o olhar é. Ela percebe. Toma um café. Pega um cigarro na cigarrilha madrilena de prata, de cigana mesmo, e tenta quebrar sua impostada formalidade, pedindo a ele, justo a ele, o fogo.

— Eu vim pra te fotografar, Doutora Maria Lira. Não vim pra acender-lhe os cigarros, em todo caso...

— Obrigada, de qualquer modo. Não sou fotogênica, não fico a vontade diante de câmeras, diante de filmes. Considero mesmo um purgatório passar por eles. E tem mais, eu confesso, fico sempre nervosa antes de falar... Assim que terminar vou ligar pro meu namorado..., senhor...

— Romano. Meu nome é Romano. Romano Calô.

— Calau? É francês?

— Não.

— É do verbo calar, passado, calou?

— Talvez. A gente sempre vira passado. E Lira, vem de onde?

— Meu pai é poeta, músico, me deu esse nome. Os mestrados podaram muito meu pai. Lesaram sua música... sua lira.

— Não tenha o mesmo destino que a lira de seu pai, senhora.

Lira ouve seu nome ser anunciado. Pessoas muitas se dirigem ao auditório. Treme a Lira. Ela e toda sua partitura. Encarna a dama e vai. Lotado.

— Minha experiência com comunidades, tribos e suas crenças, artes, diale­tos, tem mudado minha vida. E é por isso que sou cientista. Sou mais cientista na hora em que procuro do que na hora em que acho. Não o sou pelo que encontro, mas pela busca, pelo que procuro incessantemente. A cada dia venho aprenden­do a lidar com preconceitos daninhos, mesquinhos, que eu pensava estarem há tempo absolvidos, resolvidos pela depuração que a intelectualidade deve provo­car. Engano meu. As comunidades ditas primitivas encaram suas pulsações com... (Click). Lira sente na veia o click dele e se refaz na sutileza... Com respeito por si. Eu ia dizendo que o desejo, a criação e tudo o que é genuinamente da qualidade humana, é precisamente o Deus dessas organizações. (Click).

Só ela ouvia o click profundo de Romano como quem recebe um raio, uma seta. Sentia palpitações inoportunas no meio de si e da palestra. Embora houvesse jornalistas e diversas câmeras ali, só o click dele era o trovão, o vão, o infortúnio.

Click dela bebendo água e pausando a fala; click dela tentando acender o cigarro e desistindo em seguida; click dela engolindo com dificuldade a pouca saliva.

— Numa comunidade do norte da África, por exemplo, houve um momento em que achei errado, equivocado não comermos com as mãos. Todos comiam assim ali. Eu também comi. Achei tão confortável, tão direto, tão íntimo que comecei a achar subitamente falso, hipócrita o uso de talheres. Nós também somos caçadores. A dife­rença é que temos capangas e os mandamos matar, embalar e até temperar essa caça. Isso é o nosso almoço e tudo vira um civilizado crime de supermercados. Risos da platéia. Mas somos caçadores. E sórdidos. Comemos com garfos para ficarmos mais distantes do crime... bem não estou com isso dizendo que a partir de agora só devemos comer com a mão nossa presa. Engole a saliva e ele click. Aplausos.

Ela se sente meio tonta e senta-se um pouco. Revê anotações no roteiro e levanta outra vez ajeitando com elegância o vestido de seda marfim atrás, cuja costura havia ficado presa no vale das ancas. Click na mão dela.

— Vi uma inscrição linda numa tabuleta em uma floresta no Zaire: “Enquanto os leões não tiverem os seus próprios historiadores, a história continuará sendo uma versão dos caçadores”. Aplausos fortes e entusiasmados. Alguma pergunta? Click.

— Gosta de ser negra, linda senhora? da platéia, pergunta o fotógrafo.

— Obrigada pelo linda. “Adoro” essa e minha resposta, Romano.

— Romano?... Como sabe o meu nome?

— O senhor me disse agora mesmo no corredor.

— Só se for “O Senhor”, porque eu não lhe disse nada, comecei a trabalhar agora. (Click)

Risos discretos da platéia. Lira fica tensa, mas retoma ferina e elegante:

— Em algumas áreas do interior de Soweto, por exemplo, a fotografia é con­siderada um perigo, uma... como é que eu digo?... uma ladra de almas. Nessas tribos, nossa equipe não teve permissão de realizar qualquer registro fotográfico. Pode nos parecer uma perda lamentável como pesquisadores, mas pesquisar não pode significar invasão, intrometimento, desrespeito. Aplausos.

— Creio não existir critério de melhor ou pior quando o assunto é cultura; para isso precisaríamos cometer a insensatez de elegermos alguma, fatalmente em detrimento de uma outra. Não existe regra fixa ou predeterminada em se tratando da versão que cada grupo humano dá ao Universo. Universo: unir as versões.

Chuva de aplausos. Tem gente de pé. Click, click, click. Lira agradece e está totalmente mexida pelos takes que ele pega dela. Mas não podia pensar nisso: quando se está num palco tem-se que encostar num canto as emoções pessoais de modo que adormeçam. Mas no fundo ela sabe que essas emoções se filtram e acabam por se infiltrarem interferindo no ritmo, na temperatura, no tom do tema. Bebe mais água. Click.

Por que ele gosta tanto de me fotografar bebendo água? Click. Meu Deus, acho que eu devia ter vindo com o vestido verde, iria fotografar melhor, pensa.

Lira prossegue com bravura por mais um quarto de hora no debate. Auto­grafa alguns livros, levanta-se e finaliza:

— Meu desejo é que vocês possam aprender como venho aprendendo a deli­cadeza necessária para se andar no mundo: cada casa, cada bairro, cada fave­la, cada palácio é um mundo; quanto mais delicado e simples e receptivo e generoso for o forasteiro, mais de casa ele se torna, mais de casa ele é. Gosto de voltar ao Brasil e estou emocionada por estar aqui. Em casa.

Lira se emociona. Aplausos esfuziantes, abraços. Click.

Começa o coquetel. Muita gente, eu não agüentava mais o olhar dele, sua teleobjetiva, seu carnaval, seu carrossel de misteriosas e óbvias intenções. Meu Deus, só me faltava essa. O pior é que não tenho a mínima vontade de ligar para o tal namorado novo... Meu Deus como Romano me olha!

O garçom veio trazer o champanhe e um bilhete: “Assim que chegar a hora da revelação, lhe enviarei o que consegui roubar de ti”.

Não consegui mais pegar o copo com naturalidade. Tremia muito e nunca fui de tremer. Tive vontade de pedir uma vodca, mas nessa hora um aluno me pede pra autografar um livro onde conto o que acabei de descrever na palestra; era um jovem entusiasta que falava muito e eu não o escuto, me limito a concor­dar enquanto tento ricochetear o olhar de Romano lá da outra mesa.

Bebi o champanhe com sede e ansiedade e fez um pouco de efeito. O suficiente para eu sentir o apertado das novas botas e resolver tirá-las sorrateíra­mente por debaixo da mesa. Toca uma salsa. Algumas meninas e meninos dan­çam descalços na pista. Também vou. Que calor. Descalça e moderna dancei meia hora, eu acho, sem parar. Fazia tempo.

Relaxei, mas perdi meu fotógrafo de vista. Melhor. Precisava telefonar. Cal­çando as botas, notei um papel dentro de um pé, quando voltei à mesa. Não é que era outro bilhete?

“Não vá embora, não telefone pra ele, não me deixe; não nos deixe como se fôssemos tribos menores, até porque, somos tribos menores. Quero estar no seu passo. Boteco 13, à esquerda dessa mesma rua, ao lado do auditório.”

Bebi o resto da bebida já meio quente e saí meio louca. “Doutora Lira...” Já volto, eu dizia entre os afoitos estudantes. Perturbada, mas decidida: nem o telefo­nema, nem essa loucura, vou é para o hotel. Chovia fino; tirei o colete, queria sentir a chuva, queria me acalmar. Na esquina, à esquerda, esperei um táxi. Um táxi que me salvasse. Táxi! Táxi! Ele parou. Eu sentia que estava na frente do tal boteco e que minhas costas davam direto no olhar dele. Sentia Romano me estudando o decote, sentia que seu olhar me queimava o dorso e entrava demoníaco em minha nuca. E o motorista: A senhora vai pra onde? Pra lugar nenhum. Respondi sem pensar.

— Mas como pra lugar nenhum? Tá me achando com cara de otário, ô meu? Quem vê uma mulher bem vestida assim, bom tecido, com jeito de estudada, não vai pensar que vai tratar a gente de palhaço... vai procurar um trabalho, vagabunda!

Fiquei pasma e ele tinha razão. Me aproximei da janela do carro:

— Desculpe, vim fazer uma palestra, não conheço bem a cidade, na hora que o senhor me perguntou...

— Ah, vai caçar um homem, vai! E acelerou.

Fiquei zonza, achei que estava todo mundo olhando e me dirigi sem saída ao bar. Romano havia pedido contreau. Sentei-me educada, mas sem pedir licença.

— Não costumo beber contreau. Eu disse bebendo logo um gole, nervosa.

— Mas adora.

— O que é que você quer comigo?

— Que você ligue urgentemente pra seu namorado.

— Pra quê?

— Pra que você não possa me enlouquecer de vez. Nem a voce.

— Que pretensioso! Com o seu estilo não corro o risco de enlouquecer, meu filho.

— Se é assim por que não se entendeu com o taxista?

— Meu problema com o táxi foi uma mera questão de mapa, de bússola.

— Sim. E o nosso problema, qual é?

Acabei ficando confusa. Quero mais um contreau. Ele pede e eu começo a falar de minha vinda ao Brasil; desembestei a ocupar o silêncio porque estava morrendo de medo daquela boca. Falei eloqüente e encadeada. Parecia uma corrente de frases. Um tufão. Ele olhava atento minha boca: seus movimentos, as engolidas de saliva que eu dava para me recuperar como um afogado armazenando ar. Eu me demorava nos assuntos que sempre funcionavam como “interessantíssimos”.

Mas o negro Romano veio se aproximando de mim estranhamente e pedindo e dizendo e gemendo um “Dá licença, deusa, dá licença, mulher”... Me beijou. Foi enfiando a rosa língua na minha boca que correspondia. Parecia que ele já me conhecia: meus tempos, meus mínimos intervalos, minhas exigências, minhas en­grenagens. Lambia meus lábios e mordiscava cada um de vez em quando e aí voltava felino e nobre pra dentro da minha boca. Degustava minha língua. Visitava o palácio do palato e pronunciava lá dentro calores de palavras assim: — Quero você, te comer com a mão, minha livre presa, te comer com a mão... ai que tesão.

Daí, todo o meu repertório de respostas prontas virou apenas: Quero, que­ro, quero, quero... Ele dizia no meu ouvido: Você é uma rainha verdadeira, com reinado próprio, com estilo raro... Você é gostosa.

Beijei dessa vez vendo seus lábios marrons avermelhados como um abis­mo bom. Já estava era molhada demais. Vi seu pau por debaixo da mesa furando o surrado jeans. Eu estava de olhos muito abertos. Tinha sempre bei­jado de olhos fechados; quanta coisa perdi de ver, minha nossa! Passei a mão rápida no volume dele. Um volume de Deus! Ele enfiou dois de seus dedos em mim e eu esguichei. Um chuveiro de água no meu vestido e nos dedos dele. Seus dedos me tocavam e eu era um instrumento, um cello íntimo que soava gemidos afinados.

Veio a moça que nos servia incansáveis contreaus e senti que ela também umedecia o interior da costura de seu uniforme de tergal. Com seus dedos no meu dentro, Romano perguntava baixinho: — Quantas palestras dá... por ano, doutora? Eu dizia.., quarenta... cem... dez não sei...

— Não sabe contar, minha mestra? Conta pra mim, minha fêmea?

Eu gemia outra vez na partitura dos dedos dele. Jorrava farta.

— Que água é esta? Trouxe do deserto, santa? E me beijava. Eu cabia o pau dele na minha mão e não sabia mais meu nome. Diz meu nome, diz...

— Lira, Lira, Lira... Ele dizia e eu delirava.

— Vamos sair daqui, meu nêgo. Vamos prum hotel barato com estrela nenhuma.

- Não.

Romano me enfia outra vez os dedos para lambê-los em seguida. Com a segunda mão visita minha bunda, seus segredos e curvas. Morro.

— Vamos meu amor, pagar uma espelunca, onde a gente se misture, onde você me tenha toda. Eu quero.

— Não nêga, tenho outros laços. Entrar em você não vai ter volta. Há encon­tros que se bastam no desejo.

— Mas o desejo já é quase o ato, às vezes pior que o ato. No ponto que estamos o melhor é ir.

— Fique quieta. Vou te falar um poema que acabo de compor e você vai ficar quietinha, comportadinha no “plano americano”, promete?

E me enfiou de novo os dedos úmidos.



— Cheira a tribo a me chamar

gente estrela própria única star

meus dedos se enfiam na ciência

eu Colombo a conquistar a terra

que me endoideceu chafariz nos dedos

eu com medo

de abandonar a capitania certa que sou eu

ai a ciência louca a ciência danada

me chama para amar

não vou não dá.




Eu estava absolutàmente rendida.

— Por que faz isso comigo, de onde você vem bruxo, a que horas compôs esse poema?... como sabia que eu viria? O que quer de mim?

— Não sei. Há gente que se encontra tão sublime, tão completamente encon­trada que essa gente sim, pode partir. Eu nunca agi assim, nunca mandei bilhe­tes nem na adolescência. Nosso encontro Lira, é desses abismais. Podem mover o mundo e movem, por isso sua dose deve ser mínima, eu acho.

— Eu te amo, faz uma hora que te amo, nunca amei tão rápido.

— Eu também. Imagine se a gente tiver mais prazo? O tempo de erupção do vulcão é que determina seu estrago...

— Vamos prum hotel agora, prum lugar onde não haja fotógrafos... uma pensão.

- Não.

E me beijou de novo fundo. Parei o beijo porque achei que se despedia.

— Lira, vamos aproveitar que não temos um ao outro, porque assim não corremos o risco de nos perder.

— É bonita a frase, mas quero você dentro de mim agora. Por que essa racionalidade? Quero ser sua... tem coisa mais simples do que isso?

— Escuta, Lira. Só te querer já ocupa todos os meus espaços. Não há lugar pra você morar em mim agora, porque seu lugar é vasto, seu lugar sou eu todo. Se eu deixar você entrar, vou ter que sair, entende?

Peguei na intimidade dele de novo e joguei minha bolsa sob a mesa. Fui pegá-la e o chupei como se fosse o peito de minha mãe, um picolé, um pirulito, uma lembrança. Fiquei ali protegida pelas longas cortinas que a toalha da mesa formava para nós. Ouvi sua voz para a garçonete:

— Minha querida, traga mais dois contreaus e verifique por mim se minha mulher está passando bem no toalete... está demorando.

E gemeu, ah... ahahah... a garçonete pergunta o que é, e ele responde que sente, às vezes, fortes pontadas no peito. Não será coração? Pergunta a suave moça. Ao que ele responde ofegante e definitivo: é coração.

Voltei do subterrâneo daquele paraíso como quem emerge do fundo do mar achando longe a superfície.

— Ah, meu príncipe, onde está minha compostura?... Enlouqueci!

— Sua compostura...? Vou procurá-la pra voce.

E sumiu ele, sem álibi, por debaixo da mesa. A garçonete traz o contreau e antes que ela falasse, avancei:

— Senhorita, por favor, viu meu homem ir ao toalete? Demorei e ele deve ter ido em minha procura.

— Vi, ela disse. Quero dizer, não sei, ele também perguntou pela senhora... ai, agora estou confusa...! É lindo o amor de vocês, né? Sora desculpe eu falar assim, mas tá todo mundo comentando lá na cozinha da belezura que e ver que o amor existe de verdade. Eu até falei que vou beber essa bebida amanhã com meu noivo. É bem minha folga, sabe?

— É, contreau é muito amoroso, eu disse meio atordoada com a língua dele no meio de mim, no meu negocinho, no centro exato de minha compostura. Sentia a renda da calcinha roçar meus tornozelos e não acreditava em absoluta­mente nada do que estava acontecendo. Gemia muda e minha alma parecia solta de mim. Desprendida, minha alma vagava na vadiaria do bar. A garçonete me assiste como quem vê uma novela no último capítulo.

— Sora desculpa perguntar, mas a sora não é a palestrante? Eu vi no jornal dos estudante seu retrato. Eis dão pra gente todo mês.

— Não, não sou. É minha irmã. Aaaai...!

Eu estava quase gozando.

— Por favor, peça a um colega seu pra entrar lá, veja por que meu marido demora tanto no toalete, estou preocupada porque ele sente muito o coração.

— Ai meu Deus, me entreti aqui, já vou... Sora desculpa, tá?

Ela foi. Debaixo da mesa era uma água só, do gozo dele e do meu. Ele murmurava de lá: — Chove minha deusa, chove mistério, tenho sede...

Eu escutava sua murmurância nítida como se escuta um ator murmurando lá da boca de cena e a gente na última fila como se lhe estivesse ao pé do ouvido.

Aaaaaah... gozei como quem morre e quis uivar no restaurante, na cidade, no mundo. Não pude. Meu restico de razão virou lágrima e explodi caindo a cabeça morta de pensamentos sobre a mesa. Romano retorna do oceano com o rosto encharcado de toda água do mundo. Sua roupa molhada de nosso infinito. Ele não disse mais nada com palavra de se falar com boca. Só beijo que come lágrima. Meu olhar dentro do dele já concordava: fomos feitos mesmo para partir. Partir é pra quem pode. Pra quem fica. Partir é pra quem permanece.

Algum de nós pagou a conta. Alguém dos dois levantou primeiro.

Romano leva Lira até o táxi como quem segue um andor. O bar fica atrás exalado de amor real. Os dois partem inteiros. Cada um com gosto, muito gosto de encontreau na boca. O rosto de Lira na transparência do vidro molhado da janela do carro.

Click.






LUCINDA, Elisa. “Click”. In: Contos de vista. São Paulo, SP: Global, 2004, pp. 112-125.