quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

AFAGOS Por Elizandra Souza



Diante do espelho, sentia-me nua, despida de minhas máscaras, olhando o meu avesso. Como ele descobriu tão rápido meu ponto fraco? Por que colocou aqueles dedos em meus cabelos? Por que tanta carência de um afago? È estranho quando alguém te desvenda e relata suas fraquezas.
Na infância eu não gostava de pentear os cabelos. Não sei a razão, só me lembro que minha mãe esticava bastante e tenho a impressão de que meus olhos tornaram-se meio puxados de tanto que ela escovava. Na época, era um sonho ter o meu cabelo levado pelo vento, mas ele vivia preso que nem pitbull. Passei a não gostar do toque, não sei, parecia sentir dor.
Eu estudava numa escola pública em Moema, bairro considerado nobre. Minha mãe trabalhava lá perto e conseguiu essa vaga. Na primeira série, minha professora se chamava Rosana e eu a achava linda com seus cabelos longos e lisos, quando crescesse sonhava em ficar parecida com ela. Nesse período eu queria impressioná-la, fazia de tudo para chamar sua atenção com minhas perguntas inteligentes, caprichava nas lições, pedia ajuda, mas ela não olhava nos meus olhos e me atendia com uma má vontade.
Teve uma segunda-feira em que a diretora Dona Clarice foi falar com a minha Profi (eu adorava chamá-la assim). Recomendou que a mesma verificasse se nós, seus alunos, tínhamos piolhos. Caso alguém tivesse era para ficar uma semana em casa.
Em seguida, a Profi olhou nos meus olhos. E ouvi o meu nome.
- Dara, venha até aqui!



Meu nome significa “a mais bela” e era como eu me sentia se essa cena fosse congelada. Pela primeira vez, a Profi tocou em meus cabelos com as pontas dos dedos, como se eu a espetasse. Ela soltou as minhas marias-chiquinhas, desfez minhas tranças e saiu à procura de um inquilino. Para sua decepção e frustração eu não tinha nenhum. Até hoje, eu não entendo porque ela só olhou o meu cabelo. Ela não podia ter feito aquilo comigo, ainda mais na frente de todos. Eu olhava para os demais alunos e eles riam. Eu ouvia as gargalhadas daquelas meninas com seus cabelos lisos e soltos, a Profi deveria verificar os cabelos delas que estavam mais propícios à proliferação de piolhos do que o meu que sempre estava preso.
Essa não foi à única vez que passei por situações constrangedoras envolvendo meus cabelos crespos.
Eu adorava balé e fazia inúmeras piruetas pela casa, surgiu um curso desses perto da minha escola e minha mãe resolveu me matricular para que eu ocupasse o meu tempo. Fomos comprar os meus materiais de bailarina na Rua 25 de março: vestidinho, meia-calça, laço para cabelo e as panturrilhas. Tudo rosinha como sempre quis.
Eu estudava pela manhã e três vezes na semana nos dias pares tinha meu balé à tarde. Tivemos também que mudar a rotina dos meus cabelos. Antes, eu usava apenas as tranças marias-chiquinhas.Mas, durante o curso, ganhei um novo penteado, os famosos coques, eram lindos, mas davam trabalho, para que o meu ficasse impecável como os das outras bailarinas. Minha mãe se esforçava bastante, colocava um monte de grampos, que nenhum fiozinho rebelde escapar, passava gel e colocava o laço. Lá estava eu pronta para as minhas coreografias.
Numa sexta-feira no final da aula, a professora do balé avisou que na segunda-feira nos queria de cabelos soltos, pois duas cabeleireiras arrumariam eles para a apresentação no Teatro Zanzibar no mesmo dia.
Assim começou meu desespero, como eu iria de cabelos soltos. Aquelas mulheres não saberiam arrumá-los e eu ficaria feia. Quando minha mãe foi me buscar, eu estava com os olhos vermelhos de tanto chorar.
- Que foi meu brigadeirinho?
- Mãe, a professora do balé quer que os nossos cabelos estejam soltos na segunda. E eu não quero.
- Filha, a mãe te leva na Tia Dulce e ela fará um penteado lindo para a apresentação. Prometo que será a mais bela.
Assim fez, no dia seguinte fui à aula. A Profi até olhou pra mim. Cheguei ao balé com a minha mãe, que logo foi conversar com a professora, explicou meu desejo de me apresentar, elas até discutiram, mas permaneci com o penteado da Tia Dulce e minha coreografia foi a mais elogiada.
O tempo passou e as marias-chiquinhas foram ficando no fundo da gaveta dando espaços para a chapinha e os alisamentos. E eu sempre com os meus não-me-toques. Dava muito trabalho parecer o que eu não era, porém era uma tentativa.Eu não me achava bonita, me sentia a desproporção em pessoa, não se enquadrava no padrão de beleza cultuado, pele sem definição, se tinha algo que gostava em mim..talvez os olhos.
Conheci muitos rapazes, mas namorei poucos. Acho que sou muito seletiva para relacionamentos. E, em alguns casos, eu gostava e eles não. Amizades sempre fiz muitas, principalmente com rapazes. Uns até confundiam, eu estava apenas sendo legal e não dando mole como eles acreditavam.
Numa ocasião, a convite de minhas amigas fui ao baile de rap Harmonia, eu não tinha muito apreço por esse estilo musical. No entanto, era bom respirar novos ares e até conhecer outras pessoas.
Dançando na pista, observava como os demais faziam e não tinha muita segurança nos meus movimentos, mas minha memória corporal estava relembrando o bailar dos meus antepassados.
Um rapaz se aproximou, as pernas começaram a pesar e eu fiquei meio estática, pois ele me observava e a timidez já se fazia presente, comecei a ficar repetitiva colocava e tirava os cabelos atrás da orelha.
Ele se aproximou e perguntou o meu nome.
- Dara.
- A mais bela, não é?
- Sim, como você sabe o significado?
- O meu nome é Jawari e também é africano. Significa “paz amorosa” e é da região do Senegal, quando eu estava pesquisando o meu nome estava ao lado do seu. Por isso, não esqueci mais.
- Hum, paz amorosa? Ambos rimos
Como aquele preto era lindo! Tranças enraizadas até a altura dos ombros, pele bem retinta, sorriso perfeito. Conversamos pouco, apesar de bonito, o achei um tanto “assanhadinho” e não lhe dei tanta confiança. Mas, num pequeno descuido ele me roubou um beijo, a princípio, fiquei muito irritada. Que deselegância! Contudo, gostei do beijo.
Ficamos juntos até o final do baile. Ele anotou o meu celular e eu não peguei o dele.
No dia seguinte, ele me ligou, eu ainda estava dormindo e nem reconheci a voz e nem lembro muito que conversamos. Só lembro que ele me convidou para um show de samba, que aceitei prontamente.
Jawari me causava euforia, sei lá, não sei descrever que sentimento era aquele. À noite ele ligou confirmando a compra dos ingressos e informando que o show serei dois dias depois. Nunca dois dias foram tão eternos, eu só pedia que o sol fosse embora para que a luz da lua viesse.
Chegou o grande dia, lá estávamos um de frente ao outro, assim que me viu caminhou em minha direção trajando um belo sorriso e me cumprimentou com um delicioso beijo na boca. Assistimos ao show, muito bom por sinal. Mas ainda era cedo e decidimos ir ao cinema. Não tinha filmes bons em cartaz, mas escolhemos um para ficarmos mais tempo juntos. Eu não conseguia me concentrar na tela, nos beijamos o tempo inteiro. E minha auto-censura dizendo que para um segundo encontro quem estava “assanhadinha” era eu.
Depois da sessão de beijos, ele me levou no ponto de ônibus. Fui flutuando em nuvens altas. Quando entrei em casa o telefone tocou, era ele querendo saber se cheguei bem. Agradeceu os momentos especiais ao meu lado.
No decorrer da semana não nos vimos, só nos comunicamos pelo telefone. Eu não tirava esse homem da cabeça.
Minha mãe não estaria em casa no final de semana e convidei Jawari para almoçar comigo, ele aceitou de imediato. Preparei uma deliciosa lasanha, arroz e frango grelhado. Ele comeu com tanto apetite que minha imaginação fluiu para outras dimensões.
Estávamos conversando, eu deitada em seu colo e ele acariciando os meus cabelos, eu estava me sentindo incomodada, procurei não demonstrar esse meu mal-estar, mas a vontade era de arrancar a mão dele dali.
- Dara, por que você alisa o cabelo?
- Você não gosta?
- Sinceramente, não. Prefiro que os cabelos estejam naturalmente crespos. Antes eu não gostava dos meus cabelos e os mantinha sempre raspados. Depois que li o livro autobiográfico do Malcon X, mudei meus conceitos de beleza. Sinto-me muito mais feliz assumindo minha identidade e me aceitando como sou.
- Eu aliso porque facilita e acho que fica bem melhor.
- Você já tentou ficar sem alisar?
- Ainda não.
Nesse fim de semana só conversamos, quem o mandou cutucar nas minhas feridas.
Fiquei a semana inteira olhando para os meus cabelos e pensando no que Jawari falou a seu respeito.
Resolvi encontrá-lo sem chapinha no cabelo, passei creme de pentear, afaguei as pontas, eu não me sentia bonita, mas fui mesmo assim. Ele me convidou para ir à sua casa, não ia ter ninguém por lá, quando ele me viu, ficou supreso com a minha atitude e foi logo elogiando meu novo estilo.
Naquela tarde só se ouvia Max de Castro “Um flash reflete,fotografa os seus pensamentos,sua boca, seus beijos.Ah, meu Deus não acredito estou vivendo um romance que não tem pressa.Estou aonde quis chegar... Uma idéia, relax.Se demorar, se demorar o bicho pega. Canto um bolero. A água quente me faz relaxar.Um sexo, dois sexos.A noite inteira assim, sem sair do lugar. O meu corpo, o teu corpo, a sua inteligência muscular. O teu corpo, seu rosto, a boa brincadeira de me testar...”
Suas mãos pousando nos meus cabelos, massageando minha nuca, meus seios, meu eu, meu nós...Sua língua a percorrer o meu corpo, desvendando os meus segredos...

Autora: Elizandra Souza, texto publicado nos Cadernos Negros 30 - Quilombhoje, 2007.

Fotos: Juliana Santos

7 comentários:

Ação Periférica disse...

salve e ai suave!!!

muito massa o texto, a questao do cabelo e a forma como somos induzidos a lidar com ele durante a infancia e adolecencia e segue assim na vida adulta .......... a maneira coo o racismo se manifesta pode ser varias , mas o que ele causa e sempre a mesma coisa, prtensa inferioridade, vergonha de si mesmo, perda de identidade , perda de africanidade.

Parabens pelo belo texto!

Mjiba disse...

Valeu por ter lido, publiquei nos Cadernos Negros...na época perguntei para algumas amigas pretas como foi e como era a relação com os cabelos crespos. Algumas que alisavam apresentava seus motivos, as que não alisavam, apresentou o processo de pq não alisar..é uma questão delicada...e foi juntando troca de ideias no msn, uma amiga perguntei se a professora dela já tinha tocado em seus cabelos quando pequena, ela disse: - só uma vez pra ver se eu tinha piolho. Achei isso muito foda, até chorei na hora. Nossas crianças estão passando diariamente por isso...Valeu pelo comentario.

dulixo disse...

Muito bom o texto...parabens guerreira..paz e luz na caminhada...Jah bless.

Tubarão

BORRACHA BEAT BOX disse...

TA DI PARABÉNS HEIN, DESEJO TUDO DI BOM PRA VC , E SUCESSU EM SEUS POEMAS.......

http://borrachabeatbox.blogspot.com/

janaina disse...

olha eu adorei seu blog tá demais!!

**CrYsTaL*** disse...

oIee Dara...
Amei o texto... E sinceramente, me identifiquei muito com ele em certas passagens...

Me manda seu e-mail ???//?...

Gostaria muito de conversar com vc sobre o meu cabelo e umas ideias novas que estou tendo..




sUPeer beIjIn..

Su! disse...

Olha só, mais uma arte de Elizandra!
Amei seu texto, as vezes fico querendo mostrar para todos que conheço... É, cabelo toma forma da identidade humana, ele diz quem e se posso ser ou não...
Sempre odiei alisar o cabelo, mas eles sempre estiveram presos nos coques, os famosos...
Eu acho que vou soltá-los, que acha?


Parabéns pelo texto e sensibilidade!