terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Resenha do livro "Águas da Cabaça" - Jéssica Balbino


Águas da Cabaça: as poesias maduras e tocantes de Elizandra Souza


Escritora foge da fórmula mais do mesmo, aposta na feminilidade e traz obra completa


A escritora Elizandra Souza (Foto: Cristina Sininho)
Por Jéssica Balbino
Tem o frescor da água bebida na cabaça. A fertilidade das sementes que gingam dentro dela. A feminilidade aflorada que só o fruto da poesia pode trazer. É preto. É colorido. É pulsante. Como a vida. É dolorido, como todos os preconceitos que atravessam os séculos. É doce como a esperança que brilha nos olhos das crianças. É o livro “Águas da Cabaça” de Elizandra Souza.
Lançado em outubro de 2012, a obra com 137 páginas é o fruto do amadurecimento da autora como poeta, como mulher, como representante da cultura negra.
Delicioso de ser tocado, mas para ser sentido, o livro é divido em cinco partes, além da biografia, que em traços negros, inspirou a poeta que nos faz abrir a cabaça, beber da fonte da arte mais pura que tem: feita com o coração, com a alma e com a ancestralidade.
Fora do lugar comum da literatura periférica, a obra vai além: tem verdade. Tem sentimento. Foi feita dia após a dia, gerada, cuidada, como semente a ser cultivada. E floresceu. Trouxe-nos frutos. “Águas da Cabaça” é uma obra madura. Pensada. Tratada com carinho. Não foi feita no susto, às pressas, no ‘mais do mesmo’. É mais do mais.
Contudo, a crítica e o ambiente de periferia, tidos como latente na literatura produzida em meio aos guetos não ficam de fora da obra de Elizandra. Mas eles chegam, assim como seus poemas, até mesmo os mais agressivos, com suavidade. Como no balançar das águas, como a areia da praia, como as cores da África, como as cores da vida. Por mais fortes e duros, os poemas são esperançosos. Como, penso eu, a vida deve ser.
Demorei para conseguir concluir uma resenha sobre o livro, embora tenha lido ainda em PDF. A explicação é uma só: ele é como alimento, como água na cabaça. Tem que ser um pouco por dia. Um dia de cada vez. Em ordem e aleatório. Uma obra que deve ser sentida. Absorvida.
Fui tocada não apenas pela leveza com que o projeto gráfico nos propõe, mas também pelas divisões de capítulos, com menções tão lindas a guerreiras negras ainda mais lindas. O livro me mudou. Me completou. Me trouxe o encontro que eu precisava comigo mesma, com a minha história, com a vida de milhares de mulheres que lutaram por nós. E foi no momento em que eu mais precisava.
Elizandra Souza soube fazer a vida soprar, pular e reverberar por meio das páginas do “Águas da Cabaça” com textos que passeiam sobre o que somos, o que fomos, nossos sonhos, nossas realizações e o amor. Ah, o amor. Ele está presente em toda obra. Seja na forma das raízes, dos poemas, da negritude, das novas manhãs, das pontas dos dedos, da saudade do ‘painho’, do cuidado com Andwele, das mulheres campesinas, da Favela, Mulher!, das estrelas que não se apagam, do ritual secreto, da fundação e da poesia que está em toda parte.
A diagramação feita por Nina Vieira ganha ilustrações de Renata Felinto, e que são arrematadas pela capa concebida por Salamandra Gonçalves. O time, todo feminino, completa a arte da veterana Elizandra Souza, que já lançou Punga, ao lado de Akins Kintê e participou de um sem número de publicações, contribuindo com o inato jogo das palavras, acrescido do jornalismo que assim como a arte, é latente e quase palpável.
O único defeito da obra: demorou muito para ser lançada e acaba tão rápida que tem que ser relida, carregada, compreendida e degustada. Mas, pede mais. Eu peço mais !!!
Mais sobre a obra: http://www.facebook.com/elizandramjiba?fref=ts

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